Em 03/06/2019 às 09 h58

Um coração que jamais deixará de bater: o imortal Luisinho Lemos

Ídolo do America deixa grande legado no clube, onde é o maior artilheiro


Autor: Renan Mafra / Fotos: Divulgação (America Rio), Acervo Histórico e Reprodução

A torcida do America amanheceu em lágrimas no último domingo (2). Uma das maiores lendas de sua história partiu sem se despedir. Uma semana após sofrer um infarto à beira do campo comandando a equipe em jogo contra o Nova Cidade, pela Série B1, Luisinho Lemos acabou falecendo aos 66 anos. O ídolo saiu da vida, mas com a certeza de que a história construída no futebol jamais será esquecida.

Mesmo tendo defendido times como Flamengo, Botafogo, Internacional (RS) e Palmeiras, Luisinho ficará será sempre lembrado como um grande ídolo do Mecão. Ele é o maior artilheiro da história do clube com 379 gols e o terceiro maior goleador do Maracanã, atrás apenas de Zico e Roberto Dinamite, ídolos máximos de Flamengo e Vasco.

Por coincidência, no título do America na Série B1 do Campeonato Carioca de 2018, com Luisinho como técnico, o mesmo sempre citava, em tom de brincadeira, "que o coração americano sofria, mas era forte". O coração parou de bater, mas seu legado vai pulsar para sempre.

O começo da carreira

Apesar da grande identificação com o America, Luisinho Lemos deu seus primeiros passos nas categorias de base de outros dois clubes do Rio de Janeiro: Fluminense e Vasco. Porém, não conseguiu atuar profissionalmente na dupla, muito por conta do serviço militar, já que após se alistar, Luisinho serviu ao Exército. Ele inclusive perdeu a chance de fazer uma partida oficial no Cruzmaltino por estar de plantão no quartel.

Aos 20 anos, Luisinho Lemos foi levado por um de seus irmãos, César Maluco, para o Palmeiras (SP). César Maluco é o segundo maior artilheiro da história do Alviverde Paulista, com 180 gols, e fez parte do famoso time da Academia, que esbanjou sucesso entre as décadas de 60 e 70. Em São Paulo, Luisinho também não atuou profissionalmente no Porco, mas somente na na Ferroviária (SP), em 1972.

História começa a ser escrita no America em 1973

imageEm 1973, começou a gloriosa história de Luisinho Lemos no America. Ele ficou duas temporadas seguidas no Mecão e ajudou a equipe na conquista do título da Taça Guanabara do ano seguinte. Apesar dos rubros não terminarem a competição com o título, Luisinho mostrou seus dotes de artilheiro e acabou o Campeonato Carioca como o goleador máximo, com 20 gols marcados.

Neste título, os torcedores do America se deliciaram com a equipe. Em 1973 e 1974, apenas nesses dois anos, eles puderam ver a dupla Luisinho Lemos e Edu em ação. Os dois são considerados os maiores ídolos americanos. E a equipe ainda contava com outros nomes idolatrados pelos torcedores, como Alex, Flecha, Orlando e Gílson Nunes. Um verdadeiro esquadrão que está para sempre na história.

Atuações de sucesso no Flamengo e chegada à Seleção Brasileira

Em 1975, Luisinho Lemos se transferiu para o Flamengo. E engana-se quem acha que o atacante foi apenas de passagem pelo Rubro-Negro. Foram 183 partidas com 117 vitórias, 38 empates, 28 derrotas e 95 gols marcados. E se fez uma dupla inesquecível com Edu no America, reencontrou o companheiro no Mais Querido, mas recebeu inúmeros passes de um irmão mais famoso da Família Antunes: Zico, ídolo máximo do Fla.

E se Luisinho marcou seu nome na história do Flamengo, ele também agradeceu muito ao Rubro-Negro por um motivo muito especial. Em 1976, foi convocado para defender a Seleção Brasileira e fez seu único jogo pelo Brasil quando defendia o clube. Além de jogar com Edu e Zico no Fla, Luisinho atuou com o próprio irmão, Caio Cambalhota, outro centroavante que cheirava a gol.

Ao sair do Flamengo, Luisinho Lemos foi para o Internacional (RS), onde ficou por uma temporada, conquistando o Campeonato Gaúcho de 1978. Depois retornou ao Rio de Janeiro, para atuar no Botafogo. Na sequência, teve a primeira experiência no futebol do exterior, ao defender o Léon (MEX). Mas a saudade bateu e Luisinho voltou para casa, onde foi recebido de braços abertos pelos torcedores do America, que via o ídolo de volta.

Saídas do America, mas sempre com retorno

Luisinho ficou dois anos no America e quando saiu para o Las Palmas (ESP), perdeu a chance de fazer parte de uma das grandes conquistas da história do clube, que foi o título de Campeão dos Campeões, torneio que reuniu as principais equipes do Brasil, que foram campeões ou vice dos Estaduais do ano anterior. Mas a ausência de Luisinho foi tão sentida que o diretor de futebol do clube na época foi até a Espanha para repatriar o ídolo. O nome do diretor: Léo Almada, ex-presidente do clube e considerado um dos mais dirigentes rubros.

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O esforço valeu a pena. Em 1982, Luisinho Lemos liderou o America rumo ao título da Taça Rio. No ano seguinte, o Mecão sequer chegou ao triangular final do Campeonato Carioca, mas Luisinho não poderia deixar o clube de fora da festa e foi o artilheiro da competição, com 23 gols, superando nomes como Zico e Nunes, do Flamengo, e Washington e Assis, do Fluminense.

Em 1984, Luisinho foi fazer o que não tinha conseguido em 1972. Mesmo não tendo mais o fantástico time da Academia, o atacante acertou com o Palmeiras, clube onde seu irmão, César Maluco, é ídolo. Pelo Alviverde Paulista, o atacante disputou 27 partidas, com 15 vitórias, oito empates, quatro derrotas e seis gols marcados. Retornou ao America em 1985, onde no ano seguinte ajudou a equipe a chegar à semifinal do Campeonato Brasileiro, parando apenas no São Paulo. Em 1987, acertou com a Ferroviária (AL), antes de mais uma vez embarcar para o exterior.

Experiência no mundo árabe e fim da carreira como jogador

Luisinho Lemos foi ter uma experiência no mundo árabe e deixou um grande legado, já que após encerrar a carreia de jogador, ficou trabalhando como técnico na região por 11 anos seguidos. Atuou por Al-Wakrah e Al-Sadd, ambos do Qatar. Em 1991, retornou ao America, treinou no clube, mas acabou acertando com o Americano. Após deixar o Cano, foi para o São Cristóvão.

Após defender o São Cristóvão, retornou ao mundo árabe para defender o Qatar SC. Porém, não poderia se despedir do futebol com outra camisa que não tivesse a cor de sangue. Em 1994, aos 42 anos, Luisinho pendurou as chuteiras em um amistoso entre America e Americano. Fez dupla de ataque com outro centroavante, um baixinho que acabava de conquistar o mundo: Romário, logo após o Brasil conquistar o título da Copa do Mundo de 1994, onde o camisa 11 tinha sido protagonista no Mundial.

Como técnico, início em casa, como não poderia deixar de ser

Luisinho Lemos encerrou a carreira de jogador, mas não o futebol. Escolheu ser técnico e "para a surpresa" de todos, começou num clube que poucos imaginariam: o America. A química não poderia ser ruim. Nos seus primeiros anos como treinador, duas grandes campanhas.

Primeiro, em 1995, com o America terminando na quinta colocação do Campeonato Carioca, atrás apenas dos quatro grandes. No ano seguinte, uma oitava colocação, também com grande caminhada, com o Mecão ficando apenas três pontos atrás do quinto colocado, o Itaperuna.

Em 1999, Luisinho Lemos teve mais uma rápida passagem pelo America e ainda comandou diversos clubes do Rio de Janeiro, como Bonsucesso, Itaperuna e Madureira, além de times tradicionais do Brasil, como Remo (PA) e Brasiliense (DF). Em 2007, partiu para o mundo árabe, onde ficou por 11 anos e treinou diversas equipes.

Volta à casa para o último adeus, com nome eternizado na história

A parceria que apenas a morte separou não poderia dar errado. Após o America sofrer o quarto rebaixamento de sua história em Campeonatos Cariocas, a diretoria escutou a voz da torcida e contratou Luisinho Lemos. E o que fez o treinador? Recolocou o America na primeira divisão com direito ao título da Série B1 de 2018, e ainda sendo eleito, em votação popular da Seleção FutRio, o melhor treinador da Segundona.

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O título fez Luisinho Lemos igualar uma marca importante que apenas duas pessoas na história do America haviam conseguido: Belfort Duarte e Edu. Luisinho entrou para o seleto grupo de ídolos que conquistaram títulos como jogador e treinador do Mecão, fazendo seu nome ficar ainda mais forte na história do clube.

Na primeira divisão, Luisinho não conseguiu levar o America à fase principal e o clube acabou rebaixado mais uma vez. Apesar de fazer bons jogos, a equipe sentiu falta justamente de um camisa 9 do perfil de Luisinho. Dentro de campo, o domínio sobre os adversários não se converteu no que o mestre fazia tão bem: gols.

Talvez dos cinco rebaixamentos, o sofrido em 2019 foi o menos doloroso, já que o America se apresentou bem. A diretoria, vendo a situação, optou por manter Luisinho Lemos no comando para mais uma Série B1. Logo na estreia, um 3 a 0 contundente para cima do Nova Cidade. Entretanto, mal sabia a imensa torcida do Mecão que aquele jogo, naquele 25 de maio de 2019, no Estádio Joaquim de Almeida Flores, seria a despedida de um eterno ídolo.

Aos 28 minutos do segundo tempo, o coração americano, o forte coração americano de Luisinho Lemos, deu uma desacelerada. O treinador passou mal à beira do campo. O jogo foi paralisado, a ambulância entrou em campo e levou o treinador para o Hospital Juscelino Kubitschek, no munícipio de Nilópolis, perto do Estádio Joaquim de Almeida Flores. O treinador foi transferido para o Hospital Geral de Nova Iguaçu, localizado no Bairro da Posse, no dia seguinte ao jogo.

Durante a última semana, buscando preservar os familiares, o America divulgou notas oficiais, mas sem se aprofundar no estado de saúde de Luisinho. Na manhã de domingo (2/6), o coração americano, o forte coração americano do treinador, parou de bater, mas apenas nesse mundo. Na história do Mecão, as conquistas, os títulos, os 379 gols e as grandes partidas, jamais serão esquecidas. E o coração jamais deixará de bater para a enorme torcida americana.

Luisinho deixou a vida, mas honrando o que diz o hino do America: torceu para o clube até morrer.

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Tags: Luisinho Lemos, America

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