Em 11/10/2018 às 18 h47

#SãoCriCri120: De João Cantuária a Bellot, um clube forjado pela dor

Mortes prematuras de atletas marcaram história cristovense em diferentes tempos


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Vida Sportiva, Jornal dos Sports e Luis Alvarenga (Extra)

A história do futebol do São Cristóvão tem seus personagens heroicos, mas também é marcada por alguns momentos inesquecíveis de dor. Se tantos times de futebol já perderam atletas na plenitude da forma, ainda em atividade, certamente são poucos os que foram atingidos tantas vezes pelo azar quanto o time cadete. Desde seu início, o clube cadete foi obrigado a conviver com a morte repentina de jogadores importantes e marcantes. Tornou-se um clube forjado não só por vitórias e derrotas, mas também por uma dor difícil de descrever e que nem 120 anos conseguem apagar totalmente.

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Na terceira reportagem da série "#SãoCriCri120", do FutRio.net, as mortes de três personagens marcantes da história cristovense são destaque. João Cantuária, o primeiro grande craque e referência do clube, um dos poucos jogadores a terem a honra de serem citados no hino da própria agremiação. Fernando Rufino, jovem revelado nas canteiras brancas de Figueira de Melo e que buscava uma oportunidade de decolar na carreira. Josenildo Bellot, o atleta que mais jogou pelo São Cristóvão em todos os tempos, recordista de partidas e de idade em um jogo oficial. Todos estão unidos por uma triste coincidência: a de, literalmente, darem suas vidas em nome da camisa que defendiam.

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Cantuária: o primeiro ídolo, o primeiro choque

João de Menezes Cantuária nasceu na mineira São João del Rey, em 29 de setembro de 1893. Neto do Marechal João Tomás de Cantuária, gaúcho que combateu na Guerra do Paraguai e que foi Ministro da Guerra no governo de Prudente de Morais, era portanto de linhagem nobre. Ainda na adolescência, mudou-se com o restante família para o Rio, onde trabalhava seu avô. Foi irmão de Dócio Cantuária, com quem jogaria anos mais tarde e também dividiria a paixão em comum pelo esporte e, sobretudo, pelo futebol.

Cantuária começou a jogar ainda aos 15 anos e estava na reunião histórica, ao lado de outros 20 jovens, que fundou o São Christóvão Athletic Clube, em 5 de julho de 1909. Jogou por clubes como Riachuelo, Palmeiras e Mangueira, passando de vez à primeira equipe cristovense em 1913. Era claramente um jogador de grande qualidade e que exercia papel de liderança. Não demorou para que virasse o capitão e também treinador, mesmo com tão pouca idade. Afinal, tinha moral de sobra por ser um dos idealizadores do clube de futebol, que já ganhava notoriedade.

Foi com Cantuária que o São Cristóvão ingressou no Campeonato Carioca, também em 1913. O jogador, que atuava como médio, além de diversas outras posições, conquistou admiradores não só entre os torcedores de seu clube, mas também de outros times. Passou a ser nome constante na Seleção Carioca e chegou a disputar dois jogos pelo time nacional, num período em que a Seleção Brasileira propriamente dita ainda não existia. Em Campeonatos Cariocas, ainda é um dos grandes artilheiros da história cadete, com 31 gols.

O ano de 1918, no entanto, marcou a sociedade carioca de maneira negativa. A epidemia de gripe espanhola, inicialmente espalhada pela Europa, chegou ao Brasil em setembro, através de navios que chegavam da Europa e da África. Morreram, por causa da gripe, mais de uma centena de marinheiros, o mesmo número de fatalidades, entre os mesmos, na Primeira Guerra Mundial, que estava para terminar. Por infortúnio, o saudável e vigoroso Cantuária acabou sendo um dos milhares de cariocas acometidos pela doença.

imageEm 6 de outubro, numa vazia Rua Ferrer (por causa da enorme preocupação com a proliferação da doença), Cantuária faria seu último jogo com a camisa do São Cristóvão. Já estava doente, mas não contou a ninguém: queria jogar e atuar da maneira que fosse. Ficou em campo durante os 80 minutos (tempo regulamentar de jogo, à época) e viu o empate em 1 a 1 com o Bangu. A doença o impediu de viajar com a Seleção Carioca para jogar a Taça Rodrigues Alves, onde encontraria a Seleção Paulista. Luiz Vinhaes, companheiro de Cantuária no time, também ficou doente.

O Campeonato Carioca foi paralisado. O temor pela doença era tamanho que as autoridades chegou a pedir que as pessoas não fossem às ruas para "evitar aglomerações". O Presidente da República eleito, Rodrigues Alves, não pôde nem tomar posse, já que adoeceu e morreu no começo de 1919. Para desgraça do São Cristóvão, o destino de Cantuária não foi diferente. João passou por semanas de sofrimento e morreu em 25 de outubro de 1918, com apenas 25 anos. Foi um dos mais de 15 mil cariocas tombados por causa da gripe espanhola.

Quando o craque cadete faleceu, já era comum chamar o São Cristóvão de "o clube de Cantuária", tamanha sua popularidade e ligação com o time da Figueirinha. Sua morte enlutou de vez um futebol que já andava preocupado com a epidemia. João Cantuária foi enterrado no cemitério São Francisco Xavier e o São Cristóvão declarou luto oficial até o fim daquele ano. Um de seus últimos pedidos, no leito de morte, foi a um colega de time para que "não perdessem para o Botafogo", em uma das partidas inicialmente marcadas para aquele mesmo mês de outubro. O pedido acabou atendido e, em 5 de janeiro do ano seguinte, na remarcação da partida, seu time venceu por 3 a 2.

Fernando: o adeus em plena excursão

Corria o ano de 1968 e o São Cristóvão começava mais uma temporada. Já firmado como um time da primeira divisão, três anos depois do título da Segundona, o clube da Zona Norte não era o mesmo de décadas anteriores, mas ainda era capaz de angariar a simpatia e, portanto, a atenção de alguns torcedores. Entre os jogadores de um plantel consideravelmente jovem, destacava-se o garoto Fernando. Revelado no próprio São Cri-Cri, o meia foi titular com frequência no Campeonato Carioca de 1967 e esperava uma oportunidade na nova temporada, que ele esperava ser positiva.

Naquele mês de fevereiro, o São Cristóvão se preparava para mais uma excursão, que passaria por Mato Grosso do Sul e São Paulo. Em campo, as coisas iam bem, com o time vencendo, em Campo Grande, Comercial e Operário, empatando ainda com o Misto. Após a temporada na cidade matogrossense, os atletas foram se hospedar na pequena Castilho, à beira do Rio Paraná e um pouco além da divisa entre o então unificado Mato Grosso e o Estado de São Paulo. No domingo, 18 de fevereiro, estava programado um amistoso diante do Castilho Atlético Clube, no Estádio Valdomiro Moreira Aguiar.

Naquela tarde, o São Cristóvão venceu por 1 a 0 e Fernando esteve em campo, mas as comemorações duraram pouco. O time enfrentaria, dois dias depois, o Linense (SP), a pouco mais de 200 quilômetros dali. Alguns atletas deram seu próprio jeito de ir e Fernando pegou uma carona ao lado do zagueiro Aílton e do preparador físico Ferreira. Ainda nos primeiros quilômetros da viagem, pela BR-262, a tragédia. Quando se aproximava de Andradina, o automóvel tentou ultrapassar uma Rural-Willys e trocou de faixa. Os quatro passageiros foram atingidos em cheio, de frente, por um caminhão que vinha na direção contrária. Eram 21h30.

imageOs quatro ocupantes do carro ficaram feridos. Aílton levou 12 pontos no antebraço e três na boca, mas não houve maior gravidade. Fernando, porém, tinha sérias lesões no peito e na cabeça, precisando ser operado de emergência em Andradina. Poucas horas após o acidente, já na madrugada de segunda-feira, o coração do jogador deixaria de bater: era mais uma morte trágica na história do São Cristóvão. Ferreira, um dos sobreviventes, foi o responsável por fazer o translado do corpo do jogador para o Rio de Janeiro. A excursão acabou ali mesmo e o então presidente, Luis Desideratti, ordenou que todos voltassem imediatamente. Fernando Rufino morreu aos 22 anos.

As versões eram conflitantes. Embora a maior parte dos jornais falasse em acidente, o "Jornal dos Sports" (imagem acima) publicou que um jogador do Castilho teria se oferecido para conduzir os atletas, mas estaria embriagado ao volante. O fato é que Fernando poderia nem ter viajado: Marcílio, volante do Madureira e amigo do jogador, disse que o parceiro só foi à excursão porque seu contrato foi renovado a poucos dias da viagem. Do contrário, não iria. Fernando foi homenageado meses depois, com a realização de um torneio que levou seu nome. Jogaram Campo Grande, Madureira, Olaria, Portuguesa e o próprio São Cristóvão, com o título ficando com o time da Rua Bariri.

Bellot: na Figueira de Melo, até o fim

Um sorriso fácil, jeito simpático, 1,76m de altura e madeixas encaracoladas pendendo de uma cabeça ligeiramente calva. Josenildo Bellot ganhou as manchetes de todo o país aos 46 anos, quando atuou pelo São Cristóvão em uma partida profissional. Com o time na segunda divisão do Carioca, o veteraníssimo goleiro já era uma espécie de "faz-tudo" dentro do clube, mas pouca gente conhecia sua história com os cadetes. O pernambucano de Goiana já tinha uma respeitável trajetória no futebol brasileiro, era uma espécie de andarilho, mas que encontrou na Figueira de Melo o lugar ideal para descansar.

Nascido em 1965, Josenildo chegou ao Rio ainda menino para defender o America nos times de base. Ficou 12 anos em Campos Sales, jogando pouco e saindo posteriormente para rodar o país. Jogou em São Paulo, Goiás, Pernambuco, Piauí, Mato Grosso... Até que chegou ao São Cristóvão para a disputa da Copa João Havelange de 2000. Acostumado às divisões inferiores, o já experiente goleirão não se intimidou e foi dono de algumas boas atuações. Chegou a atuar pela Portuguesa, mas voltou logo ao clube alvo.

E foi no São Cristóvão que ele fez história. Pouco a pouco, virou referência e foi driblando a idade. Dobrou a marca dos 40 anos sem muita dificuldade, disputou a Segundona do Carioca em algumas oportunidades e acabou desenvolvendo pelo clube um carinho fora do comum. Já mantinha uma escolinha de futebol em Oswaldo Cruz, na Zona Norte, quando se tornou membro da comissão técnica, adotando o sobrenome Bellot. Foi técnico, preparador físico, auxiliar, preparador de goleiros. E, de quebra, era relacionado no banco, para alguma emergência...

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Em 2009, com a saída do técnico Jorge Madeira, coube a Bellot salvar o time do rebaixamento à Terceirona. E deu certo, com o time se mantendo na Segundona e salvando-se novamente na temporada seguinte. Naquele ponto, ele já era um ídolo, embora talvez não tivesse ciência do fato. Foi inscrito no campeonato de 2011 e chegou a atuar alguns minutos, apenas para ser o então recordista de idade em um jogo profissional no Rio de Janeiro. Entrou nos acréscimos da partida contra o CFZ, a última do São Cristóvão no ano, para gravar seu nome nos anais do futebol do Rio de Janeiro. Mas nem do simpático Bellot a tragédia se desviou.

Era uma sexta-feira, 23 de março de 2012. Bellot já não era jogador, nem treinador, mas compunha a comissão técnica. Após algumas voltas no campo, pela manhã, como sempre fazia, foi ao vestiário buscar algumas bolas para o treinamento que começaria em alguns minutos. Na saída para o vestiário, porém, sentiu-se mal e caiu inconsciente, vítima de um infarto fulminante. Socorrido de imediato por alguns funcionários, não resistiu e já chegou morto ao Hospital Souza Aguiar. Tinha 47 anos de idade e completava, naquela semana, suas bodas de prata.

No momento em que morreu, o ex-goleiro vestia uma camisa do São Cristóvão, a mesma que ninguém tantas vezes vestiu quanto ele: foram 432 partidas, um recorde absoluto e, provavelmente, inalcançável. Em vida e em morte, Bellot levou o clube no peito.

Tags: São Cristóvão

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