Em 09/10/2018 às 18h03

#SãoCriCri120: Figueira de Melo é pioneira que ainda resiste

Às vésperas dos 120 anos, São Cristóvão tem estádio como seu maior orgulho


Autor: Gabriel Andrezo / Fotos: Gabriel Andrezo, Carlos Junior (FutRio), A Cigarra e Jornal dos Sports

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Os tempos atuais passam longe de serem gloriosos para o São Cristóvão de Futebol e Regatas. A recente queda para a quarta divisão do Estadual, por conta da escalação irregular de um jogador, fazem o time cadete alcançar seu ponto mais baixo na História, justamente no momento em que o clube está às vésperas de completar 120 anos. Mesmo que o presente seja triste, o passado é belo, como diz o próprio hino cristovense, composto por Lamartine Babo. Por isso, o FutRio.net inaugura a série de reportagens "#SãoCriCri120", homenageando o aniversário histórico do clube da Figueira de Melo, fundado em 12 de outubro de 1898.

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Nas quatro reportagens que irão ao ar até a sexta-feira (12), dia do aniversário, o leitor do FutRio conhecerá um pouco mais sobre aspectos pouco abordados ou detalhados da história do São Cristóvão, inicialmente fundado como um clube de regatas e depois fundido ao clube homônimo que era voltado a outros esportes, sobretudo o futebol. E é justamente o berço do futebol cadete o tema da primeira reportagem especial da série que destaca a semana histórica para um dos clubes mais importantes do Rio de Janeiro.

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Rua Figueira de Melo, 200. O endereço não é dos mais populares entre o grande público, mas quem jogou neste local nunca esquece as coordenadas. Não se pode dizer que não é bem localizado: próximo ao Centro do Rio, à antiga estação de trem da Leopoldina, a dez minutos da estação de São Cristóvão e a uma curva à direita após a subida da Linha Vermelha, para quem vem de carro. A Figueirinha, como passou a ser conhecida, passou mais de 100 anos sem um nome próprio. O estádio do São Cristóvão sempre foi conhecido pelo nome de sua rua, como aconteceu a outros campos (São Januário, Bariri, Conselheiro Galvão etc.), mas mantém tradições fieis que remetem à sua origem.

O estádio do então São Cristóvão Athletico Club foi fundado em 23 de abril de 1916, num empate entre São Cristóvão e Santos (SP), que terminou empatado em 1 a 1. Reza a lenda que foi depois deste jogo que os santistas (que até então só jogavam com o uniforme listrado) passaram a adotar um uniforme todo branco, em homenagem aos cadetes, clube com os quais mantinham grande relação de amizade. Foi naquela área tão central, tão nobre e que ainda remetia a uma época marcante da história carioca e brasileira que o São Cri-Cri cresceu.

A Figueira de Melo nem sempre teve o aspecto de "alçapão", que ganharia tempos depois. Talvez por estar em uma área nobre, próxima aos grandes palácios, quarteis e museus da cidade, oriundos do recém-encerrado período imperial, não se via o estádio como um lugar hostil para os clubes maiores, vindos da Zona Sul. Mas ganhar dentro do estádio era muito diferente e o São Cristóvão começou a fazer fama na cidade por ser um time dificilmente batível dentro de seus domínios. Isso se consolidou, sobretudo, nos anos 20.

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A campanha do título carioca de 1926 deu ao São Cristóvão goleadas marcantes dentro de casa, como os 5 a 0 em cima do Flamengo e os 6 a 3 diante do Botafogo. Algo que poucos torcedores sabem é que nem sempre a Figueirinha teve o esquema atual de posicionamento de arquibancadas. Inicialmente, a lateral do campo era paralela à Rua Figueira de Melo, mas uma mudança na planta, no fim da década de 20, fez o campo girar em 90º para que uma grande e nova arquibancada fosse colocada na nova lateral do campo. A ideia era ampliar a capacidade de um estádio que recebia cada vez mais gente.

E os motivos para isso não faltavam. O São Cristóvão tinha grandes times, fazia bonito em diversos campeonatos e já se alinhava como uma das principais forças do futebol carioca. Mas uma tragédia quase colocou tudo isso a perder em 19 de setembro de 1943. O São Cristóvão iria enfrentar o Flamengo pelo segundo turno do Campeonato Carioca, mas a nem a Figueirinha seria capaz de suportar tanta gente, o que fez o clube pedir ao Vasco da Gama para liberar São Januário. Os vascaínos, que não abriam mão de jogar contra o Madureira em seu estádio – e talvez de nariz torcido por darem espaço aos rubro-negros em sua casa – se negaram.

Às pressas, o São Cristóvão construiu arquibancadas de madeira, com estrutura leve, para facilitar a montagem e desmontagem das mesmas. No dia 19, o estádio estava totalmente tomado para o jogo, que valia a liderança do campeonato. Logo no primeiro minuto, o Flamengo abriu o placar em chute de Zizinho que acertou a trave e caiu no pé do baixinho Vevé, que completou para o gol. Mas aquela foi a única alegria da tarde: aos 18 minutos, uma parte das arquibancadas de madeira veio abaixo, ferindo mais de 200 pessoas. O jogo foi imediatamente interrompido e o gramado mais parecia uma praça de guerra.

imageO futebol carioca mostrava, ainda nos tempos de Segunda Guerra Mundial, muitas incongruências. A estrutura improvisada causou grande transtorno e interrompeu o jogo, que só seria retomado três dias depois, em São Januário. O São Cristóvão empatou o jogo nos 72 minutos que restavam. Mesmo com tantos feridos, ninguém morreu, mas o jornalista Mário Filho, anos depois, detalhou um fato interessante no livro "O Negro no Futebol Brasileiro": enquanto a Figueirinha ardia com o jogo da rodada, São Januário tinha público reduzido para Vasco 4x0 Madureira. Uma briga entre torcedores na arquibancada fez um soldado puxar a arma e atirar. Morreram três pessoas.

A Figueira de Melo ficou fechada por três anos, sendo reaberta em um jogo diante do Vasco, em 1946, na inauguração das arquibancadas de concreto. Mas o charme do local nunca se apagou. As campanhas da equipe declinaram nos anos posteriores, mas o estádio nunca deixou de ser utilizado, pelo menos até a abertura do Maracanã, em 1950. Tornou-se popular, a partir daí, a realização de preliminares envolvendo jogos de grandes clubes, o que acabou tirando da Figueirinha muitas partidas.

A segunda metade do Século XX viu um São Cristóvão menos glorioso do que o dos tempos idos, mas a Figueirinha seguiu de pé. À medida em que muitos de seus contemporâneos já não existiam mais ou tinham sido demolidos, o estádio cadete seguia de pé e recebendo jogos. À medida em que o tempo foi passando, a sala de troféus foi tornando-se museu e o local se firmou como uma espécie de fortaleza da história do futebol carioca. Mas, no aspecto técnico, os grandes jogos já tinham se afastado, o que foi dando ao estádio um ar de mero de campo de treino.

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Nas últimas temporadas em que o São Cristóvão disputou a primeira divisão do Carioca (1993 e 1995), o mando de campo cadete foi na Rua Bariri, em Olaria. Apenas nas divisões inferiores é que o clube teve a possibilidade de jogar com frequência no local. De 2014 para cá, nem isso: a falta de laudos técnicos, consequência da grande crise financeira pelo excesso de dívidas trabalhistas, tirou qualquer jogo oficial do estádio. Um presente triste, como já foi destacado, mas que não apaga a trajetória de um dos locais mais antigos para se jogar futebol na cidade, atrás apenas de General Severiano, hoje campo de treinos do Botafogo, fundado em 1913.

A história, literalmente, não se apaga. Se os grandes jogos sumiram, a inscrição "Aqui nasceu o Fenômeno", relativa a Ronaldo, revelado na base do clube, se tornou marca registrada de um estádio visível por milhares de motoristas que passam diariamente pela Linha Vermelha. Recentemente, o Conselho Deliberativo do Clube derrubou o protocolo de que o estádio não teria um nome oficial e decidiu batizá-lo como Estádio Ronaldo Nazário, em decisão que dividiu sócios e torcedores, mas que só prova o peso e a relevância de uma das catedrais do futebol carioca.

Tags: São Cristóvão

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