Em 02/10/2018 às 00h48

Presidente do Barra Mansa é afastado; dirigentes se acusam após escândalo

Justiça determinou saída de Andrinho, que também é investigado pelo MP


Autor: Redação FutRio / Fotos: A Voz da Cidade, Divulgação e Diego Soares

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Próximo de completar 110 anos, o Barra Mansa vive aquele que talvez seja seu momento mais complicado na História. Mantido na Série B2 do Carioca depois de uma campanha apenas regular em 2018, o clube passa por severas dificuldades fora de campo neste ano, que começou com os efeitos de uma polêmica eleição e vai terminando com denúncias sobre manipulações de resultados de jogos. Em meio a este turbilhão, o clube está sem presidente. Anderson Florentino, o Andrinho, foi afastado do cargo pela Justiça por conta de supostas irregularidades no pleito de dezembro do ano passado, no qual foi eleito por aclamação após sua chapa ser impugnada, mas regularizada logo em seguida.

Na noite desta segunda-feira (1), o Conselho Deliberativo se reuniu no Clube Municipal, de forma extraordinária, para discutir a situação de Andrinho, que estava presente. Foi lida pelo presidente do Conselho, Sílvio Antônio Francisco, a determinação do Ministério Público sobre o afastamento de Andrinho. Em seguida, ele se pronunciou sobre as acusações às quais responde, de ter desviado das contas do Barra Mansa para a dele próprio uma quantia de R$ 343 mil, oriundas da parcela paga pela Internazionale (ITA) pela compra do lateral-esquerdo Dalbert, revelado no Leão. Andrinho terá de 15 a 20 dias para apresentar as notas e justificar os gastos.

Com Andrinho agora afastado, o comando do clube fica nas mãos de uma espécie de "junta provisória", comandada pelos beneméritos Ronaldo Lira e Pinguilim. Eles ficarão no comando até que novas eleições para presidente sejam marcadas. A polêmica, que culminou com a saída de Andrinho do cargo começou nas últimas semanas de 2017. Na altura, Anderson e Thiago Campbell se candidataram à presidência do clube, mas o pleito foi impugnado pelo Conselho Deliberativo, que vetou a inscrição das chapas ao alegar que os dois candidatos não conseguiram comprovar a regularidade dos títulos que os qualificassem como sócios do Barra Mansa.

A poucos dias da eleição, Anderson Florentino (que buscava a reeleição como presidente) entrou com um mandado de segurança, disputou sozinho e foi eleito por aclamação. Thiago Campbell, que fora técnico e dirigente durante o primeiro mandato de Andrinho, entre 2015 e 2016, deixou o clube e juntou-se ao Rio São Paulo, da mesma Série B2 disputada pelo Barra Mansa, onde assumiu como treinador e gerente de futebol. Apesar de ter vencido o Barra no campo durante o campeonato (1 a 0), viu seu time ser rebaixado à Quartona após a perda de pontos pela escalação irregular de um jogador. O caso segue na Justiça e será julgado na sexta-feira pelo Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD).

Manipulações e transação milionária são investigadas

Além da questão que envolve as eleições do Barra Mansa, Anderson Florentino viu o cerco sobre si se fechar nos últimos dias. Na quinta-feira passada (27/9), ele foi um dos alvos de uma investigação da Polícia Civil relativa a denúncias de manipulações de resultados de jogos e apropriação indébita. Segundo a Delegacia do Consumidor (Decon) e o Grupo de Atuação Especializada do Desporto e Defesa do Torcedor (Gaedest), Andrinho, o então vice-presidente de finanças Lincoln Aguiar e Ezequias Oliveira (dono da AgeSport, que geria o futebol do clube) negociaram resultados, em 2017, junto a uma máfia internacional de apostas, recebendo valores entre R$ 35 mil e R$ 150 mil por partida.

A denúncia do Gaedest ainda dá conta de uma abordagem dos dirigentes junto aos jogadores do Barra Mansa, prometendo pagamentos de R$ 2 mil a cada jogador para que o time perdesse para o Audax pelo placar de 4 a 0, pela Série B1 do Carioca do ano passado. Os jogadores, no entanto, se recusaram e o jogo terminou empatado em 2 a 2. Uma semana depois, uma nova proposta, de R$ 3 mil para cada jogador, foi feita para que o time perdesse de propósito para o Carapebus. Novamente, os jogadores se negaram, mas a partida não aconteceu: o Barra Mansa perdeu por WO por não oferecer uma ambulância para que a partida fosse realizada.

Outra acusação que paira sobre Andrinho é a retirada do valor de quase R$ 343 mil da conta do clube, relativa à venda do lateral Dalbert, do Nice (FRA), para a Internacionale (ITA), em junho deste ano. Pelo mecanismo de solidariedade da FIFA, o Barra Mansa teria direito a cerca de 1,5% do dinheiro da negociação, que chegou aos R$ 70 milhões. Assim, entrariam nos cofres do Leão algo em torno de R$ 1,1 milhão. A quantia foi paga pela Inter em duas parcelas, com a primeira, pouco superior a R$ 500 mil sendo depositada dias depois da venda.

De acordo com a Polícia Civil, Anderson retirou parte desta quantia da conta do clube e a repassou a uma conta pessoal do dirigente, em transação que teria contado com a anuência da tesoureira do Barra Mansa, Mônica Rodrigues Rosa, namorada de Andrinho. Ao site Globo Esporte, o dirigente reconheceu que se apropriou do dinheiro porque as contas do clube estariam bloqueadas por causa de dívidas. Anderson e Mônica foram denunciados nos Artigos 288 (associação criminosa) e 168 (apropriação indébita) do Código Penal e nos artigos 41-C (solicitar vantagem para alterar resultado) e 41-D (dar vantagem a fim de alterar o resultado) do Estatuto do Torcedor. Eles tiveram seus sigilos bancários quebrados e seus bens foram arrestados até o montante desviado do Barra Mansa.

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Na operação da última quinta-feira, policiais foram até a residência de Anderson, no Sul Fluminense, onde apreenderam um automóvel. Em Volta Redonda, dois carros foram também apreendidos na casa de Lincoln Aguiar. No Rio de Janeiro, os oficiais chegaram à casa de Ezequias Oliveira e apreenderam documentos, cheques e uma quantia em dinheiro em bolívares (moeda da venezuela) e em dongs (moeda do Vietnã). A Polícia Civil suspeita que esteja no Sudeste Asiático a fonte dos grupos que formam a máfia das apostas, por meio de sites especializados em tais jogos.

Escândalo vem à tona e dirigentes trocam acusações

Após a operação da última semana, a busca foi por explicações, por parte dos dirigentes, em relação ao suposto esquema. As investigações já acontecem desde o ano passado e vieram à tona em março deste ano, quando a TV Globo fez uma reportagem expondo um esquema de manipulação de resultados que envolvia o Barra Mansa, que jogava a Segundona em 2017, mas acabou sendo rebaixado para a Terceirona e viu aumentar ainda mais sua crise institucional.

À Rádio Cidade do Aço, de Volta Redonda, Anderson Florentino deu sua versão do caso. Ele explicou que os bloqueios na conta do Barra Mansa o levaram a realizar a transferência para uma conta pessoal e negou fazer parte de qualquer esquema de manipulação de resultados, eximindo-se de responsabilidade sobre o caso e passando-a à AgeSport, empresa que geria o futebol do clube no ano passado:

– Não houve buscas na minha casa. Houve uma conversa em que fui questionado sobre a compra de um veículo e comprovei, mostrando o carnê, a forma de pagamento. No ato de abertura da conta, houve vários bloqueios, então transferimos o dinheiro para a nossa conta, para arcar com as despesas da disputa do campeonato e da reforma do estádio. Tenho as notas de tudo que foi gasto com o clube, não tem nada de ilícito. Essa suposta venda não foi feita na minha gerência. Tinha uma empresa responsável por isso, o clube só estava junto.

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Por sua vez, Ezequias Oliveira (à direita na foto acima, junto ao técnico Gilberto Pereira e de Anderson Florentino) também se pronunciou, mas ao jornal A Voz da Cidade, de Barra Mansa. Ele assumiu o futebol do clube no começo de 2017, de maneira bastante conturbada: em fevereiro, Andrinho fez uma espécie de "licitação" para terceirizar o futebol  e duas empresas se apresentaram, sendo uma delas a AgeSport, de Ezequias, e a outra a Seven Soccer, comandada na época pelo empresário Anderson Finelli. Duas reuniões do Conselho Deliberativo impuseram condições às empresas e ambas aceitaram. Porém, o presidente deu preferência à Seven Soccer, o que causou um "racha" na diretoria.

Uma parte dos sócios afirmou que já havia um documento assinado com a AgeSport desde janeiro. No entanto, Anderson assinou com a Seven Soccer sob a prerrogativa de que também tinha um compromisso firmado anteriormente e que a empresa tinha um planejamento para reformar o Estádio Leão do Sul, que não recebe jogos oficiais desde 2014. Os sócios pressionaram a diretoria, que acabou desistindo do negócio semanas depois, alegando que a Seven Soccer descumpriu vários itens do contrato, fechando de vez com a empresa de Ezequias, que se defendeu das acusações e atacou o presidente, agora afastado:

– Minhas contas são abertas para o MP, tudo foi ganho com meu suor. Ele (Anderson) tem que assumir o que fez, os erros dele. Sempre ajudei o clube e paguei todas as despesas no ano passado. Time como o Barra Mansa não tem retorno, é "várzea". Se os municípios e empresários não ajudarem, esses times vão acabar, fica inviável. Não dou por perdido o que fiz porque recebi R$ 33 mil do Barra Mansa, mas tive um prejuízo de R$ 60 mil. O Barra Mansa é um time grande. Cometi falhas, reconheço. Mas o Andrinho criou a desestabilidade econômica do clube. Minha ideia nunca foi prejudicar a imagem do Barra Mansa, um clube centenário. Ele tem é que provar o que ele fez com esse dinheiro e não jogar a culpa na minha empresa.

A confusão atrapalhou a preparação do Barra Mansa para a Série B1 de 2017 e o elenco foi formado às pressas. Em campo, os resultados não apareciam e os problemas financeiros se acentuavam. Em um jogo contra o Olaria, na Rua Bariri, os jogadores chegaram ao estádio em duas vans, faltando apenas 40 minutos para o começo da partida. O técnico Gilberto Pereira reclamou publicamente da falta de estrutura e pagamento de salários, teve uma discussão acalorada com a diretoria após uma derrota para o America e, pouco depois, pediu demissão. Ezequias Oliveira, hoje investigado pela Polícia, chegou a dizer que "ou pagava os salários ou o aluguel do estádio".

Em seguida, Luiz Fernando Irala assumiu o comando da equipe, mas também não conseguiu levantar o moral do Barra Mansa na competição. Com o rebaixamento iminente, Thiago Campbell, vindo do time sub-20, tomou seu lugar e terminou a campanha, que culminou com o penúltimo lugar na classificação e o rebaixamento à Terceirona. Depois disso, Campbell se afastou do grupo que geria o clube e entrou como candidato à presidência, fato que marcou o início da cisão administrativa que atualmente atinge o clube.

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A via-crúcis dos últimos anos; Dalbert se pronuncia

Os problemas administrativos e financeiros do Barra Mansa são antigos. Já em 2014, ano em que subiu para a Série A do Carioca, o clube conviveu com a falta de salários, mas o título da Segundona e a chegada à elite amenizaram a situação. Mas a temporada seguinte foi de caos. Athirson foi contratado e anunciado como técnico pela diretoria, mas a prefeitura da cidade – que patrocinava o clube – queria a permanência de Wilson Leite, campeão da Série B. No fim, um acordo entre as partes "realocou" Athirson para o cargo de gerente de futebol, mas ele deixou o clube a poucas semanas do Estadual, contrariado com uma decisão da diretoria, de contratar jogadores sem seu aval.

Diante das dificuldades, o técnico Wilson Leite reuniu o grupo e fez um pacto para que a equipe superasse os problemas para o início do Estadual. Mas os problemas não tardaram a aparecer, com o treinador denunciando o descaso da diretoria, a falta de médicos nos treinamentos e o pagamento de salários a apenas alguns dos jogadores. A gota d'água foi em fevereiro, quando Wilson relatou que os jogadores se alimentavam à base de pão com mortadela e, na falta de isotônico, tomavam soro caseiro (água com açúcar). O time se recusou a treinar e cobrou melhorias de condições junto à diretoria.

Ainda naquele ano, o plantel barramansense chegou a ser despejado do hotel em que se hospedava, em Barra Mansa, por causa de uma dívida de R$ 64 mil. Almir Marques, que era o presidente do clube na ocasião, admitiu o débito e precisou, às pressas, encontrar um novo local para que os atletas ficassem. Os atletas chegaram a fazer uma greve e se recusaram a treinar por dois dias. No fim do Campeonato Carioca, o clube até se livrou do rebaixamento em campo, mas foi punido pela escalação irregular de dois jogadores, perdeu pontos e terminou mesmo na última colocação, voltando à Segundona. Almir Marques renunciou em agosto, reclamando que a prefeitura não pagou os R$ 600 mil acordados ao clube porque, segundo a mesma, as contas do Leão não tinham sido fechadas, algo contestado pelo dirigente.

A temporada de 2016 não foi diferente. De volta à segunda divisão, o time fazia campanha ruim até o fim de março, quando os jogadores cruzaram os braços ao reclamarem de salários atrasados. O problema foi contornado por Anderson Florentino, então já eleito para o primeiro mandato como presidente do clube, que conversou com os atletas e os convenceu a voltar aos trabalhos. Pouco depois, no entanto, o Barra Mansa foi suspenso da Segundona por não ter pago os borderôs de quatro partidas. Mesmo pagando as dívidas, o clube chegou a ser suspenso por mais duas vezes, mas recuperou-se na competição e evitou o rebaixamento.

Nome que poderia ser a salvação da penúria financeira do clube, o lateral-esquerdo Dalbert viu, à distância, as denúncias que envolveram o Barra Mansa na última semana. As notícias da investigação, que afirma ter havido um desvio da quantia destinada ao Leão pela venda do jogador, entristeceram o lateral, de 25 anos, que defendeu o clube no nível profissional, em 2012, mas onde ele jogava desde 2008. Dono de 20 partidas e um gol com a camisa do Leão, ele se manifestou e repudiou a situação os dirigentes, que ele considera responsáveis pelos percalços recentes:

– É lamentável. O Barra Mansa foi o primeiro clube profissional do Brasil e hoje é notícia por fatos ruins. É pão com mortadela como refeição, manipulação de resultados e desvio de dinheiro. Quando o clube tem a chance de respirar um pouco financeiramente e investir nas categorias de base, indivíduos como estes, que pensam somente no próprio umbigo, sufocam ainda mais a instituição. Provada a culpa, espero que cumpram a pena bem longe do futebol e da sociedade e que o dinheiro retorne aos cofres do Barra Mansa. O Barra Mansa me abriu as portas, mas não diria que o clube que leva o nome da cidade que nasci, pela incompetência dos dirigentes atuais e anteriores, é merecedor de receber qualquer ajuda financeira. Torço para que a FIFA, talvez até por uma fiscalização da CBF, reveja seus critérios em relação a isso, para evitar que surjam mais dirigentes corruptos e para tornar os clubes, de fato, formadores de novos talentos.

Tags: Barra Mansa

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